Como o tratamento familiar pode auxiliar na recuperação do dependente químico

Mãe teve depressão devido à dependência do filho e precisou de tratamento

Depois de acordar de um coma devido ao uso excessivo de drogas, Williams Leite, de 37 anos, decidiu buscar ajuda contra o vício que o acompanhou por mais de 20 anos. Ao abrir os olhos, a primeira pessoa que viu do seu lado na cama de um hospital foi a mãe dele, Cila Barbosa, que minutos antes havia sussurrado em seu ouvido, implorando para que voltasse à vida. Mas este não foi o único momento em que Cila esteve ao lado de Williams. Apesar de todo o sofrimento e angústia serem transferidos para a mãe, a presença dela nesses momentos tão difíceis foi determinante para a reabilitação dele.

Mas para ajudar o filho a se livrar das drogas, o caminho foi longo para Cila, que não conseguia tomar o controle da situação. “Eu não sabia lidar com meu filho e acabava fazendo todos os gostos dele, como quando ele me pedia dinheiro e eu sempre dava”, diz a mãe.

O fato é que ela não sabia, mas tinha o que pode ser chamado de co-dependência: uma doença que, nos casos em que envolvem uso de drogas, afeta principalmente os familiares do dependente, que se envolvem diretamente na dependência do outro.

“Esqueci de viver para mim, para viver para ele. E a co-dependência é isso. É a perda da alma. Fiquei surpresa quando os profissionais de uma clínica disseram que eu era uma doente e que também precisava de ajuda”, expõe a mãe, que perdeu as contas de quantas vezes precisou subir e descer em grotas de Maceió para resgatar o filho, sob a condição de pagar as dívidas dele com traficantes.

“Vi meu filho amarrado dentro de uma casa de um traficante e só pude tirar ele de lá depois de pagar as dívidas. Quando eu ia às grotas, perguntava aos traficantes se tinham visto meu filho e eles me indicavam onde era a casa e eu ficava cara a cara com eles”, conta Cila.

Williams – que hoje é conselheiro terapêutico, palestrante, especialista em dependência química e acompanhante terapêutico – tem uma vasta lista de situações que o colocaram frente à frente com a morte. Quando era usuário de crack, cocaína, maconha e outros tipos de drogas, ele tentou o suicídio por sete vezes, esteve internado dez, foi preso por duas vezes, morou nas ruas e adquiriu problemas psicológicos severos, tais como esquizofrenia, depressão e síndrome do pânico.

“Depois do coma, admiti que eu era impotente perante a droga e que tinha perdido o domínio da minha vida. Pedi socorro e a primeira pessoa a me ajudar foi a minha mãe”, conta Williams. Cila buscou clínicas de recuperação logo após o coma, seguido de um pedido do filho, que ajoelhado, implorou à mãe para que fosse internado. “Nas primeiras internações meu filho piorou, chegou a 123 quilos por causa dos medicamentos e ainda foi abusado sexualmente em uma clínica psiquiátrica. Depois que ele teve problemas psicológicos, procurei uma clínica que o tratasse com base na espiritualidade, e encontrei. Foi quando vi que estava dando certo”, explica Cila.
Pesquisa avalia impacto do consumo de drogas na família

Uma pesquisa inédita do Instituto Nacional de Ciências e Tecnologia para Políticas Públicas do Álcool e Outras Drogas mostrou que em 57% dos casos, a família é a instituição responsável pelo tratamento do dependente químico, e que as mães são uma espécie de ‘chefe’, que tomam à frente do processo de recuperação em 46% das situações. O Levantamento Nacional de Famílias dos Dependentes Químicos ouviu mais de 3.100 famílias, em 23 estados de todas as regiões do Brasil, no período de 2012 e 2013, mas só foi divulgado recentemente.

Ainda de acordo com os dados, 45,8% das famílias consideram que as más companhias são determinantes para levar um indivíduo a consumir drogas e que 44,3% delas perceberam que o dependente usa drogas após comportamentos agressivos apresentados por ele dentro de casa.

A família configura um suporte extremamente importante para o tratamento do dependente. E a pesquisa comprova isso, quando mostra que em 58% dos casos são os parentes que custeiam a internação, que é a primeira opção encontrada por eles para a busca de ajuda.

Em seguida, os dados mostram que os parentes tendem a buscar grupos de apoio, como o Amor-Exigente, para tratar a doença. O tratamento, porém, impacta de maneira drástica o aspecto financeiro da casa, principalmente dos pais, que levam em média três anos após a descoberta do uso para pedir ajuda.

Tratamento para além do dependente químico

O foco do tratamento era Williams, mas a recuperação também se estendeu à mãe, que além das visitas ao filho, passou a frequentar a casa de reabilitação uma vez por semana para cuidar de si. Foi quando ela entendeu que para dá forças ao filho neste momento tão importante, precisava também cuidar da sua depressão. Além disso, as reuniões serviram para que Cila Barbosa fosse orientada a mudar alguns comportamentos que poderiam estar facilitando a persistência de Williams no consumo de drogas. Uma das orientações foi o poder do não.

“Tive que entender o porquê da minha doença para enxergar o quanto eu precisava de ajuda. Dava tudo o que Williams pedia, mas já na primeira reunião percebi que não devia ser assim”, conta. Ela afirma que todas as quintas-feiras frequentava a casa onde eram promovidos palestras e atendimentos psicológicos sobre o assunto aos familiares. Nas reuniões, os parentes não se encontram com os dependentes, mas partilham experiências entre si.

Um dos grupos que trabalham com foco nos familiares dos dependentes químicos é o ‘Amor-Exigente’, que existe há 30 anos no Brasil e 10 anos em Alagoas, orientando parentes, educadores, dependentes químicos e outros compulsivos. A mãe de Williams participou dos encontros. Sem oferecer uma ‘fórmula milagrosa’, a equipe traz para os pacientes princípios de organização pessoal, familiar e social.

Para isso, o Amor-Exigente se utiliza de 12 Princípios, baseados em um estudo nos Estados Unidos. A pesquisa foi realizada por um casal de psicólogos que queria entender como podia ajudar seus três filhos usuários de drogas, explica a voluntária do Amor-Exigente em Alagoas, Nara Magalhães. Estes princípios foram trazidos para o Brasil em 1985 pelo padre jesuíta Haroldo Rahn, que os adaptou para a realidade brasileira. Assim, denominou o conjunto de princípios de Amor-Exigente.

De acordo com Nara Magalhães, o grupo possui 100 atendimentos semanais, em seis grupos, sendo cinco em Maceió e um em Arapiraca. Ela afirma que as mulheres – a exemplos de mães e avós – ainda compõem a maioria das pessoas que busca participar dos encontros.

“Em geral, não apenas em Alagoas, as mães buscam mais ajuda que os pais, mas tem crescido a presença masculina em nossos grupos e isso é muito importante. porque quanto mais pessoas da família estiverem envolvidas para a mudança de atitude, melhor”, explica.

Ela afirma que os sentimentos de vergonha, isolamento, culpa, medo e raiva são os mais frequentes nos familiares que chegam ao grupo para o tratamento, assim como ocorreu com Cila, cujo sentimento de culpa era o que prevalecia.

“Essas características do codependente o fazem tomar algumas atitudes que causam problemas e só ajudam a manter a doença, como o comportamento facilitador, minimizador, controlador e de negação, entre outros”, diz a voluntária, que acrescenta: “O Amor-Exigente reconhece que os familiares podem ser aliados poderosos para que o dependente entre em recuperação e na prevenção às recaídas”.

De forma gratuita, a Secretaria Estadual de Prevenção à Violência (Seprev), por meio da Rede de Acolhimento, oferta serviços de reabilitação tanto para usuários de drogas como orientação para seus familiares. Atualmente são cerca de mil dependentes em processo de recuperação. O órgão também utiliza a abordagem de 12 princípios da Dependência Química. O tratamento conta com uma equipe multidisciplinar de enfermeiros, psicólogos e assistentes sociais.

Segundo o psicólogo da instituição e especialista em Dependência Química, Amilton Júnior Amaranto, o sentimento que toma conta dos familiares quando descobrem que um ente querido está envolvido com drogas é o de desespero, porque se sentem perdidos diante do problema. Além disso, é comum a busca por ajuda vir da família e o usuário negar “até o último momento” que precisa de tratamento.

“Aqui damos várias dicas específicas para a mãe que está desconfiada, por exemplo, que seu filho está usando drogas, ou mesmo para aquela que já tem certeza”, diz, informando que os atendimentos funcionam todas as terças-feiras, às 15 horas, na Rede de Acolhimento, localizada no bairro do Farol, em frente ao Mirante Santa Terezinha.

O perfil de familiares são muitos. O psicólogo diz que atende casos peculiares, como por exemplo, de casais em fase de separação, porque não conseguem se entender quanto à forma de agir diante de um filho dependente de drogas.

“No casal, sempre há aquele que diz o ‘sim’ e aquele que diz ‘não’ para o usuário. Ensinamos aqui como devem agir com os filhos e como agir um com o outro. Ou seja, aquele que sempre diz sim tem que entrar em um consenso para não desautorizar aquele que diz não. O casal precisa estar unido neste processo de recuperação”, explica o especialista, que conta também haver pais e mães com depressão e que se sentem culpados pela situação.

Uma das orientações que o psicólogo dá para os pais perceberem se os filhos estão usando drogas é observar se há alguma mudança de comportamento. “Se o filho era tranquilo, calmo e de repente passa a ser agressivo, por exemplo”, acrescenta.

“Quando as mães chegam desesperadas sem saber o que fazer, intervimos, mostramos um cronograma de atividades e horários para regrar os filhos. Damos uma dinâmica, passamos até a reensinar os pais a agir diante dos filhos. As formas de orientar variam conforme a realidade de cada um”, expõe.

Os familiares devem passar pelo mesmo período em que o dependente estiver na casa de acolhimento, no mínimo seis meses. “É um ato de radicalidade, na verdade. Tem que existir sensibilidade para incentivar essa mudança de comportamento na família”, expõe o psicólogo.

Com a mudança de comportamento, aprendendo a dizer não, e curada da depressão, Cila obteve forças para prosseguir acompanhando o tratamento do filho. A dependência química não tem cura, mas Williams não usa nenhum tipo de droga há sete anos. Ele trabalha ao lado da mesma polícia que o prendeu, dando palestras em escolas e alertando os jovens para as consequências nocivas do uso de drogas. Além disso, Williams também ajuda dependentes químicos, conseguindo internações gratuitas para quem não pode pagar.

“A família é a base principal do dependente químico. Minhas tias ajudaram indiretamente. Não desmerecendo os parentes, mas uma hora eles se cansam. Em quase cem por cento dos casos, posso dizer que só a mãe é quem realmente enfrenta no começo, no meio e no fim”, declara Williams.

“Antes ele era um egoísta. Só pensava nele e nas drogas. E hoje ele tem amor próprio, mas sabe amar o próximo quando trabalha para que as pessoas não usem drogas. Agora ele me motiva e eu tenho orgulho do meu filho”, complementa Cila.

“Costumo dizer aos pacientes que o fundo do poço é o melhor lugar do poço, porque é lá que está o chão e é do chão que podemos ter o impulso para subir”, finaliza o psicólogo.

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